Feeds:
Posts
Comentários

Algumas notas

Em algum lugar do passado o Rio de Janeiro esqueceu aquele destino de guia civilizacional dos trópicos. É possível respirar por ali, andando pelos seus bairros tradicionais, ou visitando o encontro entre a floresta da Tijuca e o Rio antigo, o ponto de encontro entre a civilização e a selva dos delírios tropicais de Darcy Ribeiro. Ainda está tudo lá adormecido e ao mesmo tempo fazendo parte da cidade, como uma memória de uma infância feliz sob a sisudez de um terno. Todo o clima carioca se baseia nesse passado que simbolizava um sonho de cultura. Mas, como disse, há resquícios dele por todo lado. É preciso saber capturar e observar. Espero que um dia o Rio reencontre consigo mesmo e conduzida o Brasil para além da ilusão progressista cartesiana.

****

Já São Paulo é a hipérbole personificada. Vista do avião a cidade se estende sem pudores pelo horizonte e é agressiva, imensa e feia. Total oposto do Rio.  Não há muito o que admirar, somente sua grandeza. E por seu tamanho draga todos os desejos daqueles que produzem o que está além do necessário. Artistas, músicos, escritores e sonhadores são levados para lá transformando a cidade em algo belo. São Paulo é tudo ao mesmo tempo agora, por isso sedutora. Sempre odeio e amo a cidade quando vou lá. E volto sempre. Sempre.

***

O show do Faith no More foi foda. Mike Patton é, antes de ser um frontman de uma banda de rock, um artista. Sabe não só conquistar o público, como alimentá-lo com um conceito consistente de rock, sem tratá-lo como idiota. Transita facilmente em todas as nuances possíveis do rock. Esse é seu maior trunfo.

Apesar das críticas negativas gostei do show do Primal Scream. Não conhecia muito bem a banda. Mas gostei principalmente do tratamento audiovisual do show. O telão lançava imagens icônicas do século XX criando uma hipnose politicamente carregada.

Sonic Youth foi aquilo tudo que se espera de Sonic Youth. Sem tocar hits dominaram a noite. Envolveram milhares de pessoas sob o signo do caos, com muita dissonância. A chuva que caiu com o primeiro acorde coroou a noite e amplificou o clima soturno. Fuderoso, como esperava.

***

Carol me ensinou que o melhor picolé do mundo é feito de melão e que, ao menos que já conheça a cidade, não é muito bom atravessar a rua antes de o sinal ficar verde. É possível que tenha me ensinado algumas coisas a mais, tipo que o sotaque dela é divertido, a dançar Sonic Youth e que Banana Yoshimoto é mulher. Vivendo e aprendendo. Foi legal encontrar com ela em São Paulo, apesar do pouco tempo.

***

Não me arrependo de drunk messages. E um ponto final às vezes é necessário.

Matadouro 5

dresden_1945

As sombras da guerra em seus diversos tons de cinza são mostrados por Kurt Vonnegut, escritor norte-americano de ascedência alemã, em Matadouro 5. Sobrevivente do bombardeio de Dresden, na II Guerra Mundial, o escritor traça, através de seu personagem, Billy Pilgrim, a trajetória de quem sobreviveu ao inferno.

Antes de tudo, Billy Pilgrim é um idiota. Não sabe ao certo o que está fazendo atrás das linhas alemãs. Só quer ser deixado em paz. O resultado disso é que vira prisioneiro de guerra. E a guerra transforma. Arranca de dentro do ser humano o pesadelo e o torna real.

A narrativa de Vonnegut é fragmentada, o tempo não é linear, já que seu personagem foi abduzido e mantido num zoológico extraterrestre. A guerra e a abdução, duas experiências-limites, arrancam a idiotia de Pilgrim. Transformam-no, primeiramente, num homem e posteriormente num cínico. Experiências de choque que cindem o espaço-tempo e proporcionam ao autor um irônico e ácido olhar sobre a humanidade.

slaughterhouse5

O tempo linear é uma ilusão humana, ensinam os tralfamordianos a Billy Pilgrim. A partir de então o personagem se solta no tempo, visitando a guerra, sua vida posterior, nascimento e morte. O tempo é imutável. Tudo aconteceu, acontece e acontecerá ad infinitum. Se é assim, não há o que se preocupar. Somente aprender a olhar os bons momentos. Mas Pilgrim, como bom humano, só aprende a compreender o tempo com a senilidade.

Nossa fragilidade em compreender e evitar as tragédias são ironizadas por Vonnegut. Preocupar com a guerra não é importante porque esta é inevitável, assim vaticina o atrapalhado Pilgrim. E assim Vonnegut nos ensina que guerras devem ser evitadas, mesmo que inevitáveis. Paradoxal e irônico, claro.

All time is all time. It does not change. It does not lend itself to warnings or explanations. It simply is. Take it moment by moment, and you will find that we are all, as I’ve said before, bugs in amber.

por João Gabriel de Freitas

O êxtase, a glória, o elixir que se transforma o primeiro gole de cerveja a descer suavemente a garganta, segundos depois do cavalo marcado em seu bilhete cruzar na frente a linha de chegada. O trago e, enfim, o arrependimento. Sim, o inconseqüente arrependimento que paira a cabeça de quem joga. “Mas por que merda eu não coloquei mais grana nessa aposta?”. A sensação se solidifica tão logo vem a premiação. Pagamento na proporção de 4 por 1 e os três reais depositados no cavalo Príncipe da Guiné rendem a bolada de 12 reais.

Foi o primeiro investimento, e logo bem sucedido, na tarde do Grande Prêmio Goiânia, realizado no aniversário da capital, no Hipódromo da Lagoinha. “Algum sistema básico e simples estava dando certo para mim”, repercutia na cabeça na voz do velho Buk — sempre ele. Na verdade, um sistema nem tão básico assim. Enfim (cof, cof), não custa nada montar a banca, enaltecer a perspicácia do momento e blefar, mesmo que para seu próprio ego: TACADA DE SORTE QUE NADA!  Afinal, foda-se, a curtição do momento é o que vale, inclusive sobre o bando de amigos circundados na mesa, que se reúnem ali para apreciar os limites do ambiente, não quebrá-los.

Pois bem, ao que me compete a vitória no 3º páreo, de 1.400 metros, que deixou ainda mais eletrizante a disputa do Grande Prêmio, de 2.000 metros, que viria a seguir, só tenho a dizer que ERA BATATA! Príncipe da Guiné, montado por A.N. Santos, trajando branco e bolas azuis, figurava nas três indicações do Barretta (de especialistas), mas somente em uma delas como favorito. O macho Ourudo era apontado em 1º em duas delas, seguido de Patinho Feio. No entanto, Príncipe já havia faturado outra prova, de 1.600 metros, com tempo bem menor do que os obtidos pelos adversários. Tinha força na chegada! E ainda, registrava um peso intermediário: 461 quilos, contra 451 de Ourudo e os obesos 530 quilos medidos de Patinho Feio. Veloz e musculoso.

Olho nas patas

Mas a convicção definitiva vem na apresentação dos cavalos, antes das apostas se encerrarem. “Na primeira volta, já é possível saber o desempenho do animal pelo movimento das patas em direção à barriga”, orientava o Velho Safado em uma de suas crônicas. Observo o pique de apresentação, que não pode significar nada, mas vá lá, estamos considerando tudo. Príncipe da Guiné apresenta um repuxo acentuado das patas dianteiras, ao contrário dos concorrentes, em trotes mais curtos e quase sem deixar o solo. BATATA!! “Os favoritos nunca levam”, setencia  Pedro Palazzo, em sua lógica particular, e cumprindo a rotina de apostar no Patinho Feio. Fabiana Pulcineli saca logo cinco reais e deposita no cavalo número 6, Ousado. “Apostaram quanto? Só três? Um real? É preciso ter ousadia gente!”, desafia, comprovando o quanto mulheres conferem mais graça em mesas de aposta. O mesmo poder inebriante capaz de levar milionários à derrocada. Sorte nossa todos ali serem quase quebrados – sem o desapego ao dinheiro dos Playboys e muito menos sem a coragem de arriscar tudo dos miseráveis. Eduardo (aka Abreu) e Alfredo também apostam. Gil, somente na água e soro nasal, se abstém. Em vão.

gentebonita

Apostar é uma arte. Boa aparência não.

Grande Prêmio Iris Rezende Machado na sequência. Cascos de cerveja se aglomerando. Doze reais a mais na carteira e absorto novamente nos números e na imagem de um tiozinho, que no momento do resgate do prêmio, mostrava ter cravado a posição dos três primeiros colocados. Prêmio de R$ 800 reais. Nenhuma surpresa ou músculo retesado em sua face.

A face oculta

Cavalos sendo conferidos. Todas as previsões apontam Quality Runner como soberano. Seus tempos, nas corridas de 1.800 metros, em que chegou em 1º duas vezes nos últimos meses, são imponentes.  O único a fazer igual marca, em apenas uma ocasião, foi o cavalo Trabalhador. Fetuccine segue na raia dois e, pelo nome carcamano, já predestina a aposta de Palazzo. “Os apontados como favoritos nunca ganham!”, reforça. Vidiz e um tal Sheik Prospector apresentava no curriculum várias vitórias na Gávea (RJ). Apresentação dos cavalos e Quality Runner mostram-se monumental, com um dorso que extrapolava o arreio antes de corcovear para as ancas. Vem trazido com o rosto semi-coberto e retido por outra montaria, ao lado. No galope de apresentação, é o único conduzido sem qualquer explosão, ao lado do cavalo acompanhante. AÍ TEM!

Quality Runner

"o dorso extrapola o arreio antes de corcovear para as ancas"

Fabiana vai de Vidiz, Eduardo em Sheik Prospecto, Palazzo em Fettucine, e me rendo a Quality Runner, três reais, assim como Alfredo e, até ele, Gil, que arrisca um real depois de constatar a imponência do animal. Para tranqüilizar a consciência e ouvindo o alerta italiano, aposto ainda dois reais em Trabalhador. Alinhados, o espetáculo fica por conta de Sheik Prospector. Primeiro, queima a largada. Em seguida, escapa do brete, já sem a montaria, pula a cerca e invade desnorteado o brejo central do Hipódromo. Todos de pé e em êxtase conferem as peripécias do cavalo, enquanto o dono do animal provavelmente afunda o rosto em algum lugar. Perseguição pela pista e mais delírio. Abreu, decepcionado, quase não encontra motivação para resgatar sua aposta frustrada.

Cabeça a cabeça

Largada e Quality encabeça a disputa, atrás de um amontoado eqüino. Domina grande parte da prova, mas é emparelhado por Vidiz na reta final. O prêmio fica indefinido e tem uma chegada que quase dá descarga em todos os minutos perdidos de racionalização. Quality Runner na frente, com novo tempo recorde da pista. Comemoração desta vez compartilhada com Alfredo e Gil. Balanço final, por três reais apostados, R$4,50 de retorno. Gil leva R$ 1,50 pelo real arriscado. Não cobre os dois reais de segurança colocados em Trabalhador, mas o êxtase, a glória, o elixir do gole após a vitória dilui qualquer provento.

Aprendendo na marra

Vem aí: Comissão de Educação Violenta de Trânsito e Cidadania (CEVTC)

por Pedro Palazzo Luccas

Já aconteceu com vocês, uns dias ou outros, acordarem se sentido paladinos da Justiça? Vendo coisas erradas na rua e desaprovando pra dentro, derramando suco biliar? Isso acontece comigo média de uma vez por semana. É, não tô aqui pra salvar o mundo, negada. A média tá passando de bom.

Coisa que pensei esses dias, atravessando as pistas da Avenida 82, na Praça Cívica: poderia existir um grupo de educação violenta de trânsito. Acho que seria eficiente e divertido, apesar de abrupto.

Era mais ou menos como educação infantil nos anos 80. Quem nunca ficou de joelho no milho ou recebeu castigo similar aí jogue a primeira pedra.

Venham comigo: você, um digno membro da Comissão de Educação Violenta de Trânsito e Cidadania (CEVTC)  – vamos incluir a cidadania? -, anda pela calçada, algum bagulho bom no seu mp3, mas o olhar atento. Ao longe vê um, sei lá, entregador de farmácia, em sua Barra Circular, tirando fino de idosas.

Já sabe o que fazer, né? Gravata nele, amigo.

será melhor usar algo além de uma samba-canção...

seria melhor usar algo além de uma samba-canção...

Assim que passar do seu lado. A bicicleta vai mais um cinco metros, mas o bastardo fica. Já no chão, saca com presteza um adesivo ou algo mais difícil de tirar (ideias?). Algo bem vermelho, estilo uma placa de PARE mesmo, e prega na testa do infeliz: “Pego pelo CEVTC.” É isso aí,busted, bastard!

Esse golpe também vale para motoqueiros na calçada ou que furem sinal enquanto pessoas atravessam a faixa.

Mora ou trabalha em local movimentado? Ou precisa passar por algum e tem um belo carro na sua frente estacionado em local proibido. Já repararam que 72,8% desses casos são carros bonitões, grandes e caros? Pois bem: aqui você vai precisar de usar instrumentos do cinto dos arautos do CEVT.

Ainda não falei do nosso cinto a la Batman? Precisa ter, imprescindívelmente, uma marretinha. Acho que rola um spray de pimenta também. Ou um aparelho de eletrochoque. Mais sugestões, pequenos carrascos?

Voltando ao carro, você irá tirar a marretinha do lado direito de sua cinta, pedir para os transeuntes se afastarem, e começar pelo parabrisas. Gaste no possante o tempo que tiver. Lataria, pneus…

E não se esqueça de deixar muitos adesivos do CEVT espalhados pelo carro, OK? Não queremos que o dono pense que foi um ato de vandalismo, não é?

Nas faixas de pedestres, temos logo duas alternativas. A mais light, para os imbecis que param sobre o espaço do pedestre; continue seu trajeto, como se o trambolho não estivesse lá. Suba no capô e passe normalmente. E adesive, claro. Para os que insistem em passar quando o sinal de pedestre está aberto, é recomendável sacar do cinto bolas de tinta não-solvente em cor diversa à do carro ou moto. Aqui será preciso boa mira e agilidade. Mas valerá a diversão.

“Sabia que não devia insistir em parar aqui”

“Sabia que não devia insistir em parar aqui”

Para os casos de automóveis que param constantemente sobre calçadas, pensei em algo como partir a lata ao meio com um motosserra. Mas seria muito trabalhoso, não? Haveríamos de analisar caso a caso. Afinal, fazemos isso por dever cívico.

Acredito, amigos, que o apoio popular seria instantâneo.

Notem o vínculo quase sanguíneo entre a guitarra baiana de Pepeu e o sotaque universal do samba incrustado na alma daquele confuso Brasil em pleno Milagre Econômico.

Sigam a trilha sinuosa, vertendo feminilidade e alegria, que trançava aquele país que vivia o ar carregado da repressão pós AI-5. Sim, sob todas as circunstâncias, existia um país. Um projeto; naquele momento entrecortado, recalcado e ministrado com força bruta e propaganda.

ditadura-militar-2

Novos Baianos é a banda daquela década de 1970. O que Mutantes significara para a passada, a turma de Pepeu, Morais, Galvão, Baby Consuelo, Paulinho e toda a malandragem agregada confirmava nesta. Irresponsabilidade, criatividade, tesão e boas vibrações. A música brasileira sob o signo do sol. Síntese perfeita entre a memória e a potência musical tropical. E é sob a benção tropicalista que Galvão e Morais Moreira se encontram, via Tom Zé em meados de 1969. Ainda reverentes ao tropicalismo, com Paulinho, como crooner, e Baby arranhando vocais, o primeiro LP veio ao mundo naquele mesmo ano. É Ferro na Boneca. Uma lembrança do Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal, show happening cometido em pleno Teatro Vila Velha.

novos+baianos+bocababymoraesgalvo

Mas a força tropicalista e a alma novo baiana só aconteceriam anos depois, já na Meca artística e musical brasileira daqueles nostálgicos tempos, o Rio de Janeiro. Era preciso antes de tudo entender o que acontecia ao redor. Era preciso maturidade e principalmente sentir a terra tremer sob os pés, como toda a geração passada. Era preciso um guru para indicar a viagem ao profundo e caldaloso ser da música. A resposta a todas as perguntas tinha nome: João Gilberto. A presença mística de um dos mais poderosos símbolos de nossa música iluminou os baianos. João os ensinou a ouvir o silêncio. A partir de então, toda a potência criativa, todo o universalismo e delírio pós-woodstock encontraram a calmaria explosiva joãogilbertiana. Era forjado naquele momento um dos maiores discos de nossa música. Acabou Chorare, uma maquina de guerra zen.

Aquele ano de 1972 é o momento em que o pop brasileiro se mostrava maduro. Ano de inúmeras e raras obras-primas de nosso cancioneiro popular. Os músicos brasileiros finalmente entenderam o rock e a música negra norte-americana e intuitivamente a convergiram na mesma vibração de nossa tradição musical. Samba, rock, baião, chorinho, jazz, fusion eram uma coisa só – Música. A esquerda musical percebera que lutar contra a direita era fazer o jogo deles. E deu um salto. Acabou Chorare é a síntese disso tudo. Brasil Pandeiro rompe o ufanismo por dentro, Tinindo Trincando é a metralhadora giratória atirando contra a rigidez comportamental. Acabou Chorare a arma zen propriamente dita que une a matriz cultural ocidental com a oriental – seguindo a linha já traçada pelos beatniks, posteriormente pelos Beatles e sussurrada aqui por João Gilberto – e Um Bilhete para Didi um dos pontos mais distantes que o rock feito no Brasil jamais havia chegado. Em suma, um disco-manifesto para um movimento descentrado, pulverizado e não-nomeado.

beatles-india001

A partir dali estavam lançadas todas as apostas para o futuro. O tal BRock em plena ressaca oitentista fez questão de negar aquele projeto, por soberba e inconsequência, mas não por muito tempo – Selvagem? e Lobão com a escola de samba no Rock in Rio provam. Mas foram precisos alguns anos até o Movimento Mangue Bit e a descentralização da era da internet para que aquele projeto fosse realmente entendido e reprocessado. O resto é história.

uma pequena d.r.

Vejamos bem, três textos de outras três pessoas em três semanas neste quase esquecido e longínquo recanto da rede mundial de computadores querem dizer alguma coisa, certo?! O fato é que num dia desses de canícula – oh! – avassaladora do cerrado, com cafeína em excesso no cérebro e pensamentos cíclicos sobre alguns fatos da vida, me veio a ideia de convidar uma amiga para escrever por aqui. Daí para estender o convite a outros três amigos – Mergulhão sempre levando a vida na maciota não fez nem menção de entregar o dele – me pareceu uma ideia genial. Seria algo como um coletivo de mim mesmo – o sonho de todo blogger, estender seu ego para onde nenhum outro jamais foi!

the Sun - Tarot Card

De fato, abrir o espaço para que outras vozes se façam ouvidas por aqui é um movimento egótico, mas não só. É também um movimento de expansão e – porque não usar essa palavra – de amor. Deixar que aqueles que amamos falem por nós é uma forma de assumir que somos muito daquilo que reconhecemos – e negamos – no outro. Por isso mesmo é um movimento de ir além e para mais fundo de si mesmo. Uma verdadeira orgia espiritual; ou se preferirem, um canibalismo grupal.

chagall_nadgorodom

No mais, gostei bastante da experiência, não só por isso tudo que disse acima, mas por também rever a maneira como escrevo e por dar uma movimentada legal no blog. Gostei tanto que vou deixar permanentemente o espaço aberto para quem quiser escrever. Fica aqui meu agradecimento a Ju, Pedro, Carol e a todos que leem e comentam por aqui. E vamos para o alto e avante! :)

por Carolina Medeiros

Aposto que a maioria das pessoas pensam que a culinária japonesa se resume apenas aos sushis. Por isso, eu não culpo ninguém, sabe? Por que eu mesma durante um bom tempo também pensava a mesma coisa e, além disso, os restaurantes japoneses não ajudam muito, pois seus cardápios se resumem basicamente a sushi e sashimi. Porém, já cheguei a ouvir algumas pessoas dizendo que nunca iriam para o Japão por que não sabiam comer com pauzinhos e nem gostavam de peixe cru. Absurdo.

I just don't know what I'm supposed to be.

I just don't know what I'm supposed to be.

Como muita gente deve saber, o Japão é um país moderno e excessivamente globalizado, de modo que lá podemos encontrar todo tipo de comida. E isso tudo eu pude ver com meus próprios olhos quando fui lá há quatro anos. Além das padarias mais incríveis que eu já vi na vida e dos talheres, claro, é muito fácil encontrar por lá todas essas cadeias de fast-food conhecidas e até algumas que não chegaram ainda por aqui. Felicidade era comprar meu tall capuccino (ou “tóru capuccino”, como eles chamam) no Starbucks e sair tomando no meio da rua embaixo de um frio com de menos quatro graus. Enquanto isso, aqui em Recife, eu fico penando para levar um copinho mini de café para dentro do cinema. Mas é a vida, né?

Deixando de lado essas comidas que todo mundo conhece, a culinária japonesa é muito mais ampla do que o que temos contato aqui no Brasil. Eu não posso fazer uma descrição perfeita por que muito do que eu comi foi arriscando, sabe? Não conseguia ler o que tinha escrito e provava assim mesmo para ver se era bom. Havia muitos tipos de comida sem ser crua e nem de peixe. Eu comia muito okonomiyaki, que é uma espécie de panqueca com legumes e carne de porco, onigiri, um bolinho de arroz com recheios variados, além de encontrar sempre em todo canto espetinho de frango com molho teriyaki, chamados lá de yakitori, que são uma delícia. Também provei umas coisas esquisitas como bolinho doce de feijão, que, apesar de muito bonitinho, tinha um gosto horrível e nada doce.

japao

Porém, a comida que eu mais gostei quando estive na terra do sol nascente foi o tal do takoyaki, um prato popular em todo país, que é muito apreciado principalmente nas regiões de Kansai (que inclui Osaka, Kobe e Kyoto, entre outras cidades). A minha primeira reação ao saber do que esse bolinho era feito foi fazer a careta mais horrorosa possível. Por que “tako” significa polvo e “yaki”, frito ou assado, o que significa que se tratava de um bolinho de polvo frito. Nunca entendi como fui gostar disso, logo eu que sempre achei o polvo uma das comidas mais nojentas. A minha sorte é que meu tio, que morava lá em Tóquio, insistiu para eu deixasse de besteira e provasse o bolinho. Daí, como eu estava lá para conhecer coisas novas mesmo, fechei os olhos e provei. Não me arrependo é uma delícia!

Talvez uma das coisas que você mais vê na rua por lá, são as barraquinhas com os japas revirando os takoyakis um único palito em chapas de ferro com várias concavidades esféricas (para fazer o formato de bolinha). A massa parece com a do crepe e, além dos pedaços de polvo, também é recheado com, dependendo da receita, repolho, cebolinha e gengibre picadinhos. Depois de prontos, os bolinhos eram colocados num prato de papel que mais parecia um barquinho e depois cobertos de um molho especial para takoyaki, uma espécie de molho inglês, pó de algas e de peixe e maionese.

takoyaki

Desde que voltei de Tóquio, vivo procurando esses bolinhos em todo canto que vou. Em um restaurante bastante tradicional aqui em Recife, uma senhorinha japa até caiu na risada quando eu perguntei se eles tinham. “Ah, takoyaki a gente só faz em casa, né?”, disse ela. Com isso eu fiquei meio triste, pensando que teria que voltar para o Japão para poder comer o os meus queridos bolinhos de novo. Até que, felizmente, numa viagem a São Paulo, encontrei uma barraquinha na feira de domingo no bairro da Liberdade vendendo os danados. Depois também os achei numa lojinha lá do mesmo bairro durante a semana. Agora, não posso ir mais à Sampa sem caçar takoyakis na Liberdade. Gostaria só de poder encontrá-los mais perto de casa…

Por Pedro Palazzo Luccas

inspiração

Bukowski ensina como se portar

Quando a tarde de sábado do dia 29 de agosto iniciou nem o mais otimista dos turfistas ou catedráticos poderia prever o que estava por vir. Foi demais… emocionou todos que estavam presentes. Assim ocorreu o resultado efetivo da grande festa da programação do Grande Prêmio Goiás 2009 no Hipódromo da Lagoinha. Não tinha como ser melhor, inclusive na apuração do resultado financeiro. Muitas… e muitas… pessoas transitando e se acomodando pelas sociais, salão de apostas e restaurante panorâmico, todas buscando o melhor lugar para visualizar o desenrolar de cada um dos páreos da programação. (www.hlagoinha.com.br, 3.9.9)

Corridas de cavalos guardam um charme aristocrata que hoje se vê em poucos lugares. Lembro de ver retratado no cinema, em filmes dos quais não me recordava os nomes (apenas que são antigos), senhoras desfilando chapéus e jóias gigantescos. Senhores, mesmo os não honrados, enfiados em ternos malacabados e panamás hoje mais charmosos que por aquelas épocas. Essa pompa agora passa longe dos hipódromos. Ou pelo menos do de Goiânia, o saudoso Hipódromo da Lagoinha que, durante a infância via quando passava por lá dentro de um ônibus e imaginava como seria o que ocorria ali dentro.

Tarde de sábado normal na cidade: calor infernal e nada nada nada para se fazer além de ir a um bar e beber. Era o combinado até passar os olhos pelo site de um jornal em busca tardia pelas notícias do dia. “Hipódromo da Lagoinha sedia hoje GP Goiás de turfe.” Um convite despretensioso, meio galhofeiro, para o Alfredo Mergulhão, que comprou a ideia. Eduardo Abreu já estava na caça de um boteco com sombra e onde a cerva permaneça gelada por pelo menos 15 minutos. Nem titubeou.

Ainda acreditando na nobreza do esporte, procuramos saber o traje. Não usaríamos galochas nem camisas pólo. Só queríamos saber se dava pra ir de bermuda. E dava. Aqui não é o GP Brasil, amigo.

Que belo páreo, hein? Isso sim é Glamour, pompa e circunstância

Que belo páreo, hein? Isso sim é Glamour e pompa.

Um cantil com uísque nos garantiria caso não tivéssemos onde comprar bebidas. Já foi difícil ir ao turfe sem um chapéu e um charuto. Não daria certo sem doses encorajadoras de álcool. As corridas começaram as 14 horas. Chegamos no horário. Só pensava em balançar o bilhete da aposta e gritar o nome meu alazão. Uma arquibancada para cerca de 150 pessoas. Do lado, um bar com dez mesas e uma espécie de restaurante-camarote em cima. Do lado do bar os guichês de apostas e um quadro negro no fundo onde mais tarde um gordinho faria uma espécie de bolão. Me senti numa locação de filme.

Com cerveja, sem uísque. Eram 14 horas e não, não somos alcoólatras. Com cerva gelada a módicos R$ 3 em mãos, subimos para a arquibancada e nos aboletamos numa mesa. Posição privilegiada. Sorte de quem não sabia que não precisava chegar tão cedo para ver páreos sem importância e duplamente sem glamour. Ah, o glamour.

No guichê avançado de apostas pedimos orientações à gentil atendente. Explicou e nada entendemos. Pegamos os papéis com os páreos e os últimos resultados dos cavalos. Não conseguimos apostar na primeira corrida. Ainda meio sem lugar, vimos os cavalos passarem correndo e o narrador se esforçar para seguir com a voz a velocidade dos equinos. Parecia locutor de rádio em dia de jogo no Serra Dourada.

O primeiro nome de cavalo que chamou atenção foi Empate Técnico (as alcunhas são um caso a parte). Mas não resisti a apostar no PontoComPontoBr. Me passava uma ideia de modernidade. Meu real solitário foi para ele. Receberia, creio, algo entre vinte a cinquenta centavos se ganhasse (as apostas são 1/20, 1/40, etc. e variam de acordo com o preparo do pangaré). Largada dada do outro lado da pista de quase dois quilômetros, a cerca de 400 metros de distância de nós. Só vi que meu garanhão chegaria em último na reta oposta. Descobri hoje, 3.9.9, que fomos os penúltimos (\o/). Primeira lição que não aprendi: não aposte nos nomes, mesmo com Empate Técnico tendo ganhado. Ele era o favorito.

Hipodromo2

Aposentados e pensionistas se arriscam no bolão.

Meia hora ou mais entre uma e outra corrida. Entrada free fazia o lugar aos poucos encher. Na arquibancada, representantes de diversas classes sociais – menos A e B – buscavam cerveja, refrigerantes, pipoca e espetinhos para os pimpolhos. A quantidade de crianças, os pula-pulas e o passeio de pônei em volta de uma cama elástica (!) emulavam ali um ambiente familiar.

Nada de uísque, chapéus, charutos ou golpes.

As pessoas no bar pareciam mais habituadas ao lugar. Quase tinham ar blasè. Quase. Camisas pólo com listras horizontais, calças Wrangler e sorrisos fáceis. São proprietários de cavalos ou parentes dos donos. Ou não. Fato é que ninguém bateu as duas morenas que passaram em nossa frente: meia-calça preta, sapato vermelho bonequinha, vestidinhos adequados ao clima e carregados de charme, e, claro, cabelos devidamente espichados. Enfim um toque de glamour, mesmo sem os chapéus.

Segundo páreo e todos entramos no jogo. E todos perdemos, claro.

Já eram 15h30 e o número de pessoas já havia dobrado. O GP Goiás seria o quinto páreo e as apostas grandes começariam a partir do terceiro. Rolou premiação que beirava os R$ 5 mil. Escutávamos habituès dizerem que havia tempo não ia tanta gente. Passa por mim um secretário de Estado homenageado e aparentado do administrador do hipódromo. No camarote chega mais um auxiliar de governo, um homem, digamos, bastante presente em eventos públicos. Tudo isso que eu não estava vendo foi relatado no site do evento, com a emocionante abertura deste texto.

Terceiro páreo começa. Já sob leve efeito das cervas, arriscamo-nos num bolão. Queríamos cada um escolher um cavalo em cada um dos quatro páreos seguintes. A conta beiraria R$ 100. Não somos aristocratas, amigos. Apostamos em dois barbadas e pagamos cada um R5,33. Depois de termos

lido o jornal do turfe e os folhetos de resultados, resolvemos apostar nos cavalos indicados pelos joqueis e jogadores, na pedra cantada que havia junto dos resultados anteriores. Fossem três cavalos, apostaríamos, por sugestão do Eduardo, em El Bacanal como azarão no terceiro páreo. Ele foi nosso primeiro corte orçamentário. Ele foi nossa derrocada. Ele venceu. Tudo bem, tudo bem, passássemos por esse perderíamos nos páreos seguintes. Mas teríamos pelo menos um êxito. Não tivemos.

Empolgado, no quatro e mais emocionante páreo apostei por fora numa trifeta – jogada em que se escolhe três cavalos em ordem e o resultado precisa ser exatamente o seu chute -, seria minha chance de sair do zero. Paga melhor que o vencedor solo. Perdi de novo. Mas, como não tinha entendido, até então, a aposta, achei que meu Patinho Feio, o primeiro colocado e segundo na minha lista, me renderia algum trocado. Doce e ledo engano.

Patinho Feio fez jus aos contos infantis e deu a volta por cima

Patinho Feio fez jus aos contos infantis.

Assisti ao GP Goiás já em clima de desolação pela derrota. Trabalhador e Barrons, os cavalos que escolhi antes e nos quais depositei um real em cada, perderam. Foram segundo e terceiro colocados, respectivamente. Nell´s, do Eduardo, perdeu. Arquibaldo, do Alfredo, foi o último (teria sido ele que, sem o joquei em cima, caído no início da corrida, passou direto na antes da reta de chegada?).

Alento ao nosso desfalque financeiro foi registrar, em fotos e vídeo no celular do Alfredo, nossa participação em outrora um dos mais charmosos e aristocratas esporte, o turfe. Fomos embora sem glamour e sem dinheiro. Mas voltaremos. E no GP Goiânia haveremos de vencer.

Por Juliana Marra
loki_01Semana passada, quando Loki estreou aqui na nossa cidade, recebi o convite do Eduardo para escrever algo sobre o filme para o seu blog. Duas sensações me acometeram: honra, verdadeira, pois nunca disfarcei a admiração que tenho pelo cara e pela sua escrita; e medo, um frio agoniante na barriga por não saber se poderia e conseguiria dar conta do recado, afinal não sou uma pessoa versada em música, embora meus ouvidos sempre tenham tendido para sons elaborados e um tanto originais, o que não deixa de me trazer certo orgulho considerando que nunca tive uma educação musical ou algo do tipo. Além disso, o que sabia eu de Arnaldo Baptista além de que o figura era o líder excêntrico de uma das bandas mais viajantes e fascinantes que conheci na adolescência por intermédio de amigos mais antenados.

Algumas conversas aqui e outra ali e fico sabendo o básico: passou por isso e aquilo, drogas, acidente e maus bocados, mas o fato é que permaneceu ali, fazendo o que trazia ao mundo sua genialidade: música. Certo, tomo conhecimento de Let it Bed à época de seu lançamento, e só depois de Lóki. Bem, daí já não tinha mais jeito… era a típica fã ignorante!

De repente, o filme. E me afogando um tanto no eterno caos de ansiedade e estresse mental à que a missão me acometeu, chega o grande dia: assistir, enfim, Loki!

O filme começa e me vejo de repente mergulhando das águas infinitas da raiva (o momento em que estava), do medo, da ansiedade para águas bem claras, do riso. Todo o poder da criança, da ingenuidade e da música fazendo assim meus pés não sentirem mais o chão, meus olhos fixos, tudo o que é mais difícil pra mim: livrar-me da prisão da minha mente e entrar no prazer das minhas sensações e do meu corpo. As primeiras palavras do filme e entendi tudo, estava indo na direção errada.

Percebi que já estava ficando presa em uma grande e conhecida armadilha: quando sigo minha mente e não meu coração acabo levando para longe e evitando o que acredito ser o meu destino por aqui, fazer aquilo que me faz feliz. E, quase como um safanão, um chute na bunda para acordar, percebi que não poderia recusar o convite do meu amigo, não poderia negar-me a oportunidade de dizer, mesmo que fosse só para ele, o que o filme me fez sentir, mesmo que fosse só mais uma página de “meu querido diário”.

quadrarnaldo

Arnaldo traz isto. O poder de realização que só vem através da leveza, da alegria e do coração. Coisa de criança. Arnaldo é a eterna criança. E Os Mutantes é um parque de diversões. Para quem duvida, basta assistir ao filme. É o frio na barriga da roda gigante.

O agir com o coração que desaprendemos a cada dia, à medida que nos tornamos pessoas adultas. “Criança e louco não tem diferença nenhuma”. Cresci ouvindo isto. Lembrei-me disto com o filme, pode ser bem verdadeiro no caso de Arnaldo. Tanto quanto a “loucura”, entendemos que o poder infantil não cabe no mundo adulto. O poder da emoção, da alegria e da ingenuidade desabam diante do mundo da razão. E isto sempre nos acontece, faz parte do amadurecermos.

Arnaldo não cresceu “no prazo” e quando o mundo lhe aconteceu, já bem tarde, doeu. Doeu demais. E a cor com a qual ele teve que ver o mundo foi a cor da dor. Mas, como ele diz em uma das suas falas mais belas no filme, ele nunca perdeu a cor. Seu sofrimento coloriu sua maior obra, Lóki é um álbum visceral. E isto é emocionante. É o momento do filme que os cabelos dourados ganham cor em sua tela e também as palavras “sinto muito”. Nada é negado e mesmo que tenha tentado por um momento dar o caminho do seu rio ao que vem de fora, não conseguiu. Mesmo nesta fase, um único fluxo lhe foi possível, os desejos do seu coração, a dor de seu corpo esburacado atravessado por pessoas, como conta, num depoimento comovente demais, Regina Miranda, Diretora Teatral da peça da qual ele participou nos anos 80. E ainda assim ele foi até o fim, com o que conseguiu e o que era verdadeiro para ele, sua música, e em algum momento o teatro, a dança. Expressões que só vem do profundo, que a mente e a razão não dão conta não.

Só por isso, pela honra da entrega, ele consegue fazer a poda – também em suas próprias palavras – eliminar suas folhas que secaram em todo o processo, entre seus erros e acertos. Só por isso, pela sua coragem, a vida lhe acontece. E o amor retorna. E entende-se que este é o único caminho para a cura, seja lá do que for.

Arnaldo é o mestre que nos traz o sagrado porque com sua história podemos sentir o tal sentido da vida que procuramos tanto, nos lugares errados (Eu juro que é melhor / Não ser o normal / Se eu posso pensar que Deus sou eu…). E é exatamente nisso que está seu dom, sua mestria, ele nos mostra sermos humanos (Sinto o pulso de todos os tempos / Comigo / Até quando eu não sei. / Sinta o barato de ser ser humano / Comigo / Até quando Deus quiser.) e que só o poder que existe dentro de nós, só o caminho do coração, pode nos curar. O resto é bobagem.

Arnaldo ama na dor, ama no riso, ama a vida em todas as suas vicissitudes.

arnaldopiano

A análise intelectual e estrutural do filme não me interessa agora, em muitos jornais e blogs já escreveram sobre isto, afinal, já estreou há um tempo, além é claro, de cada um poder assistir ao filme e tirar suas próprias conclusões. A análise técnica de sua obra, e de sua música, não posso fazer, está além do meu alcance e deixo para os realmente entendidos. E mesmo tudo isso parecendo de uma infantilidade infinita, ingenuidade pura em um mundo em que esse papo de coração parece tão démodé, eu só consegui sentir e é só o que tenho para falar também.

Ah, claro, uma última coisa que aproveito para fazer é deixar minhas honras ao pessoal do Canal Brasil, principalmente ao diretor do filme Paulo Henrique Fontenelle e ao produtor executivo André Saddy. A obra deles também me arrebatou, é um filme excepcionalmente produzido. E toda a história da produção e distribuição do filme, totalmente independente e com muita raça, me faz crer que são pessoas que também estão em um caminho mais elevado. Respeito muito. Pessoas que fazem.

julianamarr@gmail.com

http://twitter.com/jumarra

cidadao

Se é possível dizer qual banda brasileira desta década estará na memória dos brasileiros daqui uns anos sem dúvida nenhuma diria Los Hermanos. Não só pelo sucesso de crítica como pelo contato quase simbiótico com o público. Por outro lado, se me perguntassem qual banda estará no inconsciente coletivo da próxima geração da música brasileira, arriscaria Cidadão Instigado. As comparações, se é que podem ser possíveis sem soar vazias ou ridículas, param por aqui.

Fernando Catatau ( voz, guitarra e teclado), Regis Damasceno (guitarra, guitarra sintetizada, violão e vocal), Rian Batista (baixo e vocal), Clayton Martin (bateria) e Kalil Alaia (técnico de som e efeitos), são os elementos que dão forma à banda mais interessante do cenário brasileiro atual. Uhuuu!, o novo disco dos caras, não segue fórmulas. Pelo contrário, alimenta-se daquele universo caudaloso já esboçado em O ciclo da De.cadência e Método Tufo de Experiências e o expande. “Universo”, no caso, não é uma figura retórica. É antes a palavra que melhor sintetiza o conteúdo das letras de Catatau e a matriz sonora da banda.

cidadaoinstigado-uhuuu

Em Método Tufo de Experiências era possível vislumbrar a densidade simbólica que as camadas sonoras e as letras evocavam. Agora em Uhuuu!, tudo se torna mais claro. As conexões entre o rock progressivo e o brega são iluminadas com um tom praieiro, por isso mais orgânicas e sorridentes. Mas ainda há espaço para as alucinações sartreanas de Catatau. O Nada, primeira faixa do disco, já desfia aquelas narrativas existenciais de um migrante lidando com a realidade de São Paulo, típicas do Cidadão, e se sai como uma introdução ao multiverso sonoro que vem a seguir.

Assim como universo, imersão não é só uma figura. É uma necessidade. É possível que quem não esteja familiarizado com a banda sinta certo estranhamento – com a voz fanha do vocalista ou com a sonoridade e as letras. Mas também é provável que já na terceira ou quarta faixa do disco, todo o estranhamento inicial tenha sido deglutido como componente essencial da viagem. A imersão é o dado mais valioso para entender o que as estranhas conexões jogadas a cada momento na cara do ouvinte querem dizer. Isso não quer dizer que Cidadão Instigado seja uma banda inletectualizada, pelo contrário. Nada mais intuitivo que um amálgama de Roberto Carlos e Pink Floyd - Escolher pra quê pode provar – ou soar como Dire Straits escapando de uma caixa de som em Belém do Pará. Tudo realmente muito estranho e intuitivo.

moebius03_big

O ápice de toda essa insana viagem sonora – conduzida pelos timbres surreais e bregas e pela guitarra psicodélica de Catatau – se dá sem dúvida em Como as luzes, Radiação na Terra e Deus é uma viagem – esta última, um delírio lisérgico que acaba num coro que poderia figurar num western spaggethi musicado por Ennio Morricone.  As paisagens sonoras criadas pela banda chegam ao absurdo de um Moebius ou de supor Neil Young dançando reggae com uma nativa em Canoa Quebrada.

Cidadão Instigado é um universo imersivo  multirreferêncial que deixa qualquer viajante mais atento extasiado e que deveria ser descoberta e assimilada por um maior número de pessoas, por uma questão de justiça – e (in)sanidade. Com certeza a banda mais interessante da cena atual – se não a melhor. Uhuuu!

moebius04_big

Postagens Antigas »