É curioso o fato de poucas pessoas caminharem. Não falo andar em círculos numa pista pré-destinada a atletas de fim de semana. Digo deslocar-se com os pés, como faziam nossos ancestrais. Poucas pessoas se dispõem a, vez ou outra, deixarem suas máquinas em casa e ir a pé para o trabalho ou a uma visita casual a amigos. É claro que há a velha desculpa dos afazeres diários impedirem um deslocar mais lento e prazeroso. Sim, criamos um sistema de distâncias e horários que nos obrigam a aceitar a ditadura do automóvel. Não se tem escolha; ou o inferno do transporte de massa, ou o falso paraíso do carro. Seria uma boa desculpa se, de fato, não tivéssemos escolha. Mas temos sim. O fato é que poucas pessoas se dispõem a olhar a vida na cidade com olhos de estrangeiro. O dia-a-dia nos cega. Usamos os meios de transporte como antolhos, vemos através de seus vidros apenas o trajeto que separa o lugar onde estávamos do nosso destino. Desse modo, abandonamos nosso habitat, o deixamos para que tomem conta por nós. É possível que se habitássemos verdadeiramente todos os cantos da cidade e estabelecêssemos um clima de cordialidade, como nos parques, diferente da competição por espaço no trânsito, os índices de violência seriam menores. Ou, no mínimo, teríamos um cotidiano mais agradável. Alienados em toneladas de aço e vidro sofremos de uma febril solidão. Somente com os pés fincados no chão, a captar a força da terra, é que estabelecemos uma verdadeira relação com o nosso meio e sabemos da força da vida. Caminhar é, não só um exercício prazeroso que liberta a mente e o corpo, como uma atitude estética. Uma verdadeira política.
Caminhada
Novembro 25, 2008 por Eduardo Pinheiro

Este teu texto esta marvilhoso! A proposta da caminhada como um ato estetico e igualmente fantastica. Caminhar e um exercicio do olha tambem. Um beijo, andarilho!