Se a história da música brasileira pudesse ser resumida em uma só noite seria o 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. E se essa noite pudesse ser resumida em um filme seria ‘Uma noite em 67′. Renato Terra e Ricardo Calil conduzem o documentário mergulhando fundo nos arquivos da TV Record. Trazem de lá apresentações musicais que definiriam a MPB e cenas pouco conhecidas de bastidores, além de reveladoras entrevistas atuais com os personagens mais importantes daquele show.
De uma tomada na transversal, em preto-e-branco e imagem granulada, dois repórteres, em meio à multidão, conversam com um jovem de camisa bufante e cabelos longos. No canto, quase fora da tela, outro jovem conversa alegremente com um anônimo. O jovem que estava sendo entrevistado era Roberto Carlos, que com algum embaraço tentava provar que era muito mais que um cantor de iê-iê-iê. Enquanto, no canto, Caetano Veloso, de forma sorridente, esperava por sua vez para ser o centro das atenções. Uma imagem bem representativa da Música Popular Brasileira.
‘Uma noite em 67′ é muito mais que um documentário musical, é a afirmação do mito de origem da Música Popular Brasileira. Os festivais da Record são considerados hoje instituições que guardam a memória de fundação da moderna música brasileira. Saíram dali os artistas mais importantes da segunda metade do século XX no Brasil. Não só isso. Aquele show de TV era uma fábrica de música, um experimento coletivo em que artistas, público, críticos e pessoas da televisão inventavam a indústria do entretenimento no Brasil. Ao vivo.
“O festival nada mais era do que um programa de televisão. Só depois é que aquilo ganhou importância histórica, política, sociológica, musical, transcendental”, diz Solano Ribeiro, um dos produtores daquele festival. Numa das cenas mais emblemáticas e longas do documentário, após minutos de vaia que o impede de cantar Beto Bom de Bola, Sérgio Ricardo irritado quebra o violão e joga para a platéia. Não se tratava apenas de um show, como disse Solano. Se tratava da vitória simbólica dos novos tempos. É o nascimento de uma nova forma de se fazer música. O público, a televisão e os críticos contavam, a partir de então, tanto quanto uma harmonia bem executada – às vezes mais. A indústria do entretenimento brasileira nascia no violão quebrado de Sérgio Ricardo.
- o pop as guitarras & o tropicalismo
Gilberto Gil é chamado ao palco para tocar Domingo no Parque acompanhado daquele que era o grupo mais bem acabado do nascente pop brasileiro, Os Mutantes. Caetano Veloso, nos bastidores, tenta explicar o que é o pop para um entrevistador confuso e abobalhado, depois da apresentação de Alegria, Alegria. Esse era o outro flanco daquela batalha festiva. A arma principal era a guitarra.

Chico Buarque confessa que se sentia sozinho naquele meio em que era considerado, a partir de então, velho. Diferente da segunda fase da Bossa Nova, forjada nos centros acadêmicos de esquerda e preocupada em conduzir os pobres para uma revolução redentora, a música jovem explodia cheia de referências ao mundo contemporâneo e ao pop. Bombas & Briggitte Bardot. Usar guitarra elétrica era se render ao rock e conseqüentemente ao imperialismo. Um pecado mortal para um jovem músico em plena ditadura militar.
Entre constrangido e auto-indulgente, Gilberto Gil tenta explicar sua presença na ridícula passeata contra a guitarra elétrica meses antes de se apresentar com Os Mutantes na TV Record. Sérgio Cabral confessa ter ido ao júri com má vontade com a música de Gil por saber que era um rock. Era verdadeiramente uma batalha entre o velho e o novo, os tropicalistas se colocavam na linha de frente. Mas antes de tudo era um show e ele devia continuar. O arranjo poderoso do maestro Rogério Duprat, o acompanhamento elétrico dos Mutantes e a letra cinematográfica de Gil conquistaram a platéia e o júri. O nascimento do pop brasileiro era transmitido ao vivo pela televisão e foi ovacionado com o segundo lugar no festival.
Fazer música, a partir de então, era muito mais que expressar sentimentos ou idéias em melodias e letras; era um processo que envolvia a resposta do público, a aceitação dos críticos e a posição do artista no mundo e na indústria. E se colocar diante das câmeras tornava-se essencial. O pop brasileiro se afirmava sem medo frente às câmeras.


