Quando ouço Velvet Underground sempre acho que é a melhor banda do mundo. É exagero, eu sei. Mas é verdade também. Faz todo o sentido crer que Lou Reed e sua gangue são os melhores artesãos de música ligeira do Ocidente. Faz todo o sentido porque são uns escroques, estão ali para te roubar e enganar sua percepção. Te oferecem poesia e te cobram de volta sua fé.
Falo principalmente do terceiro disco de estúdio, The Velvet Underground, de 1969. Não que eu não goste do primeiro, Velvet Underground & Nico, com o mestre da pop-art, Andy Warhol. Acho um disco quase perfeito, experimentalismo e pop em doses homeopáticas – um bom remédio para quem insiste em separar arte do cotidiano. Mas é que o disco de 69 me pega pelo estômago, ou pelo fígado, não sei ao certo. É assim porque é ali que se inventa, ou se define, o que hoje é o lo-fi – a música gravadas com mínimas condições técnicas para o máximo de proximidade do músico com o ouvinte. Mas não é só isso, isso é o que penso de depois de ouvir. Quando estou ouvindo o que me pega é a poesia bruta de Lou Reed.
Lou Reed parece cantar do lugar mais sujo do planeta. Faz da música uma maneira de acalentar demônios. É tão punk quanto Nelson Cavaquinho e tão singelo quanto pode ser uma canção de amor à heroina. Quando canta ‘Candy says I’ve come to hate my body’, não quer negociar uma paz com ninguém. Quer te jogar contra a parede, mexer com seus medos e inseguranças e só te livrar de lá quando assumir que não passa de um covarde. É assim que um outsider faz poesia. Não quer te lamber, mas esfolar. E sua oração em ‘Jesus’ é uma prece sem fé, sem esperança de ser salvo, um lamento ao vazio. Poesia que somente um tipo comum e desenganado pode conceber.
E como falar desse disco sem falar de Pale Blue Eyes, talvez a música mais regravada do V.U. Cool, espertíssima, bonita e sacana. The fact that you are married Only proves you’re my best friend But it’s truly, truly a sin Linger on, your pale blue eyes, canta. Não disse que oferece algo singelo e te arranca mais do que estaria disposto? Pois é, é tarde demais. Acho que é por isso que gosto desse disco, há um certo prazer em ser enganado de maneira tão esperta.


